sábado, 15 de agosto de 2009

Gestão Escolar e o exercício da ciadania... - Considerações Finais e Referências

4. Considerações finais

O cenário político, econômico e histórico respalda a construção de sujeitos, de certa forma, distantes de um conceito de Cidadania, fundamentado na conquista de direitos e deveres; na participação social; na autonomia; na responsabilidade pela coletividade. Logicamente, não se pode esquecer que houveram momentos marcados, significativamente, pela organização popular e pela disseminação de opiniões divergentes à postura dos grupos opressores. No entanto, os trâmites do sistema capitalista nunca deixaram de zelar pela construção de ideologias, legitimadoras de seu poder e, desta forma, responsáveis pela fortificação de uma sociedade inerte, passiva, incapaz de contestar.
Neste sentido, o estudo realizado permitiu a construção de vários indicadores que nos conduzem para o já comentado “déficit de cidadania”. Se, nos mais diversos momentos históricos e, inclusive, em diversos contextos da atualidade, os sujeitos defrontaram-se ou defrontam-se com a “timidez de atitude” por consideram-se pouco instruídos, podemos perceber que tal timidez não é própria desta condição, no entanto, acomete também sujeitos mais instruídos: os jovens que já se encontram no ensino médio, por exemplo.
Deve-se considerar que os jovens pesquisados, em sua maioria, possuem “bons acessos” e são proprietários de um conhecimento significativo. O estudo deu a perceber que eles já estão dotados de uma certa noção acerca de categorias básicas que compõe o conceito de Cidadania, tais como direitos, deveres, participação social e política, no entanto, foi verificada a existência de deficiências quanto à sua postura pessoal diante das mais diversas questões que envolvem o contexto social. Dificilmente, eles se colocam como protagonistas da realidade; como sujeitos autônomos, com capacidade para organização e mobilização. Na maioria das ocasiões, “terceirizam a cidadania”, responsabilizando o Estado, o “outro” pelas transformações, ou apóiam-se em opiniões já construídas, com base em interesses de grupos específicos e/ou dominantes. Em decorrência disso, também encontram dificuldades na identificação de deficiências no seu processo de formação e participação na vida social.
A partir da análise do projeto de vida de parte dos sujeitos da pesquisa, que parcialmente o definiram, percebemos sua preocupação com a formação, com o futuro profissional e pessoal, no entanto, não foram detectadas perspectivas em relação à coletividade. Suas “vontades” centraram-se num sucesso individual, que, logicamente, não pode ser desmerecido, mas que revela indícios de fortalecimento de preceitos disseminados pelo sistema, baseados na competição; na superficialidade; na imediaticidade.
Também se deve considerar que os jovens, quando indagados acerca das soluções que apontam para melhorar seu contexto pessoal e social, revelaram, ora, uma necessidade pessoal de posicionarem-se e de agirem em prol ao desenvolvimento de relações sociais de cooperação; ora, revelaram um certo desânimo diante das problemáticas que assolam a sociedade, ou mesmo, colocaram-se como “pequenos” diante das situações. Tal sentimento de incapacidade, já vem sendo percebido, ao longo da história, nos mais diversos segmentos e tem sido responsável pela construção de uma sociedade acomodada e pouco ativa.
De forma geral, consideramos que este estudo poderia ter recebido uma amplitude maior, mas foi envolvido por algumas limitações. Também se deve ressaltar que, apesar de a aplicação dos questionários ter sido tranqüila, percebemos um tratamento um tanto indiferente por parte dos jovens alunos, visto que foram entregues 36 questionários e destes, apenas 24 foram respondidos e entregues.
Apesar do surgimento de tais limitações e diante da constatação de que alguns aspectos e elementos acerca do exercício da Cidadania ainda são pouco conhecidos e/ou reconhecidos pela população pesquisada, observa-se a necessidade de uma discussão ampliada a respeito dentro das escolas públicas já que se constituem como local primordial de construção da cidadania.
A reflexão, por parte das escolas em geral, acerca dos conteúdos trabalhados em sala de aula é de suma importância. É essencial, no entanto, que se reflita até que ponto os conteúdos que são contemplados no processo de aprendizagem informam e educam para o exercício da Cidadania. Em alguns casos, a preocupação central dos docentes limita-se a uma execução fiel do plano de ensino. Esses acabam por deixar de lado a reflexão acerca de seu posicionamento dentro da escola; acerca da importância de não somente ensinar o aluno a competir, mas também de ensinar ao aluno que ele vive dentro de uma sociedade onde as pessoas não são tratadas de forma igual, mas deveriam ser; onde as pessoas não possuem o mesmo poder aquisitivo, mas deveriam possuir; onde a maioria das pessoas não participa ativamente, não se posiciona, não pensa na coletividade, mas deveria assim o fazer.
A Escola é somente uma das inúmeras fontes de conhecimento a que os jovens têm acesso, mas pode fazer a diferença, pois possui o poder de, por meio do contato cotidiano dos docentes com os alunos, capacitar não para a “pobreza política” e para a acomodação, mas para a autonomia de pensamento e para a “participação social”, esclarecendo, inclusive, que a indiferença é um dos elementos que impede os sujeitos de fazerem a “diferença” no espaço em que vivem.
Do ponto de vista docente, para que a escola possa realmente ser um lugar de educação para a cidadania se faz necessário algumas mudanças no que se refere à formação de professores. Para se criar uma escola capaz de desenvolver uma autonomia dos saberes, a democracia e a capacidade dos alunos em construir e defender um ponto de vista pessoal numa ação coletiva em que a escola se insere é preciso dar condições de trabalho dignas aos professores, o que compreende sua valorização como profissional; apoio de outros segmentos da sociedade, de modo especial a família; uma formação adequada; entre outros.
Percebemos, enfim, que a necessidade de um trabalho que traga reflexões acerca do exercício da cidadania na vida dos jovens, abre um campo de pesquisa infindável para diversas outras pesquisas e estudos que visam pensar programas que possam garantir o desenvolvimento dos indivíduos de forma integral.

"Para qualquer esclarecimento ou dúvidas possíveis, quero deixar aqui afirmado que, as referências abaixo listadas, foram tomadas como base para a realização de todo o TCC, postado aqui neste Blog em 4 partes."



REFERÊNCIAS


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